A Nossa História
 
Comecemos por desfazer os enganos. Aquele “cabras” com “k”, que lhe dá um ar modernaço, vem mesmo das cabras. O seu proprietário, Manuel Marques Marquitos, nas suas andanças de empresário e homem de sete ofícios, em dado tempo teve uma exploração agrícola e criou cabras, mesmo do outro lado da estrada onde fica o restaurante. Passou assim a ser conhecido por Manuel das Cabras. E quando há uns sete anos resolveu lançar mão a uma tasquinha, serviu-se do nome porque era conhecido para dar a conhecer o seu bar. Cheiro para o negócio é o que se poderá dizer deste baptismo com “k” e com cabras.

A partir de então foi sempre a crescer. “O bar tinha licença de porta aberta até às quatro horas da manhã, mas eu tinha-o aberto 24 horas sobre 24 horas”, diz Manuel Mariquitos. Este facto alargou-lhe a clientela, mas trouxe-lhe problemas com os parceiros do ramo. E tanto assim foi que teve mesmo de cumprir a lei e o bar passou a fechar às duas da manhã. Foi o primeiro passo para o restaurante. Ficou a saber que peixinhos do rio fritos, leia-se peixes rei e enguias, eram dinheiro em caixa.

Foi assim que se virou para o peixe do rio, apanhado ali a dois passos em pleno Tejo, na albufeira da Ortiga. O cartaz era o achigã frito ou grelhado, mas o achigã é como os turistas: só se vê no Verão. Ora o restaurante dura todo o ano, portanto tinha se trabalhar com um peixe que houvesse todo o ano. A aposta foi óbvia: a fataça. “Obrigava as pessoas a comer fataça”, conta Manuel Mariquitos. “Dizia-lhes: “Experimentem! Se não gostarem, não têm de pagar! E elas acabaram por me dar razão”. Mas a fataça grelhada ou frita, ou os lombinhos de fataça, não foram impostos a seco. Talvez o grande segredo estivesse no acompanhamento. “Uma açorda de ovas de peixe que servimos com todos os pratos de peixe”.

Escolhido o engodo para atingir o público alvo, como agora se diz, pouco a pouco vieram as reformas e as melhorias. Lá por dentro o restaurante foi aumentado e alindado, com tudo o que havia à mão: seixos do rio para o chão, madeiras para forrar meias paredes e tecto, uma valente cabeça de javali para decorar a lareira e, depois, um sem fim de alfaias e artigos dos tempos que já lá vão, mais umas centenas de garrafas de vinho presas a paredes e tecto. “Os clientes reparam nas alterações, e gostam!”.

Ao novo ambiente, estilo campestre-familiar, juntou-se a elaboração do menu. Se a imposição da fataça foi tiro e queda, também havia que diversificar. Nestas coisas de marketing há sempre o respeito pelas minorias, que, às vezes, somadas são uma grande maioria. E assim apareceram na lista a lampreia (“de Janeiro a Abril”), as enguias (“todo o ano”), o achigã (“no Verão”), o sável (“Abril, Maio, Junho”), as fritadas à Kabra’s (“também uma especialidade da casa”) e umas carnes no carvão, de javali e porco preto, mais uns maranhos (“buxo de cabrito recheado de arroz de hortelã e miúdos de cabrito”).

E a acompanhar? “Há de tudo, até vinho 'Esporão'", mas os vinhos da casa são o regional de Mação e o vinho em jarro de Pias.

Quanto ao doce? “As tijeladas de mel são a nossa especialidade”. E há ainda o arroz doce, o pudim de café, o leite creme, o doce de abóbora. “Mas tudo feito em casa!”.

Enfim, não está nada mal para um restaurante que se chama Kabra’s Bar. O que é preciso é arranjar tempo para lá ir aos dias de semana, porque aos fins-de-semana é melhor não pensar, tanta a clientela. “O restaurante é familiar. E se crescermos, acabou-se a qualidade”. Assim seja!
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